TIMIDEZNo teu olhar a minha timidez ganha forma.
O tempo concede-me o passado e refugio-me nele.
Escondo-me feito criança envergonhada,
quer o doce, não pede, mas dá a entender.
Baixo os olhos, estendendo-os ao nível do chão,
já sou arrepios à volta da alma,
sou pele suada a arder em vulnerabilidade,
a personificação da própria inércia.
Teu olhar é arma que dispara sem balas,
é a ponte para o outro lado da minha nudez,
vive aí a fragilidade, no meio do escuro
onde divide o quarto com a inoperância.
Está frio aqui, neste querer tocar-te,
perdida a batalha, porque falta a convicção,
amordaçado no peito o grito do desejo.
Um dia deixarei de ser criança,
vou esbarrar o meu olhar no teu e esvair-me em firmeza.
Não será hoje... Hoje sou todo timidez.